O que eu diria a ele, se, ele existisse? Diria: Desculpe meu bem, mas eu só tenho terças, quintas e sextas vespertinas! Vamos fazer como os britânicos às 05:00 da tarde, vamos tomar um chá? "Chá?" - Ele responderia - Você não tem tempo para nós!" E eu não tenho mesmo. A minha vida tem se alternado entre estudos, mais estudos e uma dança. E somente, inteiramente, intensamente isso. Minha monotonia, é ótima. É uma rotina proporcional a meus gostos. É uma rotina que muda e ao mesmo tempo permanece igual. É uma rotina que toca minha vida e empurra essa áspera monotonia fazendo-a descer a seco por minha garganta. É, minha monotonia é ótima. É extensa. É o lago que reflete o brilho lunar quando passo em uma janela de ônibus qualquer, e que lago! Que me desculpe o "Velho Chico" cujas águas correm de Sudeste a Nordeste banhando o povo que por ali passar, eu lhes digo, águas como as de um simples lago brasiliense não há. Sim, é a minha vida. É Deus. É o sonho. É o rascunho do mundo. É um trecho apertado e desconfortavelmente prazeroso. É uma salada. Um sorriso desdentado. Uma cumbuca de feijão. Uma linguagem materna, uma língua latina, uma fala rústica e forte, uma sonoridade sensual, e é claro, uma linguagem universal. É a minha rotina. É uma passagem de avião, sem destino mas cheia de razão. É uma corrida. É um soul. É um jazz. É um blues. É um risco. É um fio que qualquer hora desalinha. É um "temps levé" que subitamente salta, exubera e volta pro mesmo lugar. É um pouco do mundo. É um longa metragem. Minha biografia, é minha monotonia. E sim, ela ótima! É impercebível e ao mesmo tempo tempo tão óbvia. É clara. É um gosto. É um amor recitado em bossa nova. Às vezes, é o que os italianos chamam de "dolce far niente" ou pode ser considerada pelos nova-iorquinos como "normal". Não me importa, oras. Minha monótona rotina só pode ser descrita em um dicionário de língua estrangeira, onde não se acha significados apenas maneiras de dize-la por meio de outras palavras.